Nélson dedica-se à customização: «O meu escape depois do futebol»

Nélson dedica-se à customização: «O meu escape depois do futebol»

«Depois do Adeus» é uma rubrica dedicada à vida de ex-jogadores após o final das carreiras. O que acontece quando penduram as chuteiras? Como subsistem os que não ficam ligados ao futebol? Críticas e sugestões para o email [email protected].

«Estou muito contente por ter novamente um rumo.»

É desta forma que Nélson, antigo internacional português de 39 anos, conclui a conversa com o Maisfutebol sobre a vida depois do futebol. O ex-jogador de clubes como Boavista, Benfica ou Bétis de Sevilha pendurou as chuteiras em 2018 e está determinado a apostar profissionalmente na customização de calçado e vestuário.

Há três anos, na última conversa com o nosso jornal, Nélson Ramos explicou que estava radicado em Sevilha, a tirar um curso de treinador para trabalhar com crianças. Porém, foi seguindo outro caminho ao longo dos tempos e registou uma marca que já atingiu patamares interessantes: a Osky 22.

Nélson disputou o último jogo como profissional ainda com 34 anos, ao serviço do AEK Larnaca (Chipre). Sentia-se em forma e tinha uma proposta concreta do Dubai, mas o processo de separação e a promessa que fez de nunca abandonar os filhos precipitaram o adeus à carreira. Seguiu-se um vazio.

O antigo lateral direito admite que passou uma fase difícil, sem rumo, totalmente dedicado à família e com demasiado tempo livre num mundo em suspenso devido à covid-19. O curso de treinador foi prejudicado por esse cenário e a luz viria a surgir durante uma brincadeira com o filho mais novo.

«Sempre gostei de alterar o meu vestuário, desde miúdo, e mesmo quando jogava futebol gostava de usar roupa diferente, original. Um dia, em casa, o meu filho mais novo quis pintar e eu fui buscar um par de sapatilhas velhas. Uma para ele, outra para mim. E gostei tanto daquilo que decidi continuar a pintar.»

O passatempo começou a ganhar forma no dia a dia de Nélson Ramos. «Fui recolhendo informações sobre os melhores materiais, a educar-me com profissionais da área, e a certa altura decidi colocar umas criações nas redes sociais. O feedback foi muito positivo e isso motivou-me ainda mais.»

As criações de Osky 22 – sobretudo sapatilhas, mas também blusões e outro vestuário – já chegaram a outros nomes do mundo do futebol como Gelson Martins, Carlos Martins ou Carlitos, e a figuras como o piloto Bernardo Sousa ou os músicos Diogo Piçarra e Nélson Freitas.

 

Mas qual a origem deste nome? «Pouquíssima gente sabia disto, mas quando eu era miúdo em Cabo Verde, com 12/13 anos, começaram a chamar-me Netchosky, uma mistura de Netcha – Nélson em crioulo – com Poborsky. Isto porque eu jogava a extremo e era benfiquista, compararam-me ao Poborsky e isso ficou. Tanto que eu já tive um cão chamado Osky e agora uso esse termo nas minhas criações. O 22 era o meu número e a Osky 22 atualmente já é uma marca registada.»

Nélson ainda cataloga a atividade como um passatempo, mas decidiu dar o passo em frente e quer dedicar-se a tempo inteiro à customização num futuro próximo. Questionado sobre outras formas de rendimento que possa ter atualmente, o ex-jogador optou por não responder. A conversa girou em torno do seu projeto.

«Sempre fui uma pessoa muito ligada ao mundo da moda, acho que tenho jeito e decidi dar uma oportunidade a mim mesmo, seguir este caminho. O próximo passo é abrir o meu espaço de trabalho, porque para já faço tudo em casa, e quiçá no futuro avançar para uma marca de roupa.»

Por agora, o antigo lateral direito utiliza calçado ou roupa de marcas reputadas e personaliza os artigos de forma original. «Muitas vezes, são as pessoas que enviam as suas sapatilhas ou peças de roupa para eu alterar no meu tempo livre e sinto-me orgulhoso do trabalho que faço. Sempre que me considerei uma pessoa muito criativa, isto tem corrido muito bem, agora falta deixar de ser passatempo para ser uma forma de ganhar dinheiro. Já tenho encaminhado fazer um projeto comercial em torno disto e até posso fazer as minhas próprias sapatilhas», frisa.

O futebol, o futebol que foi a sua vida durante longos anos, deixou de ser prioritário. «Estava a tirar aquele curso de treinador mas, por causa da covid, estive um ano sem poder ir à escola para concluir o curso. Posso voltar a isso no futuro, para trabalhar com crianças, mas neste momento o meu foco é este projeto.»

«Já não há volta a dar, estou decidido a cem por cento a dedicar-me a esse tipo de trabalho, não vou voltar atrás. Tenho muito bom feedback de pessoas que me dizem para continuar a fazer este trabalho, estou confiante. O pensamento agora é montar o meu próprio sítio e fazer magia», atira, com convicção.

Nélson transmite confiança e motivação. Cinco anos depois de terminar a carreira como jogador, vê a luz ao fundo do túnel, sem esconder que passou demasiado tempo na escuridão.

«Passei por uma fase mesmo muito complicada, porque não estava nos meus planos deixar o futebol em 2018. Deixei de jogar para estar com os meus filhos e família, mas foi um choque. Naquela altura ficas desamparado, não sabes o que o futuro reserva. Passei por muitas dificuldades, sem saber para onde me virar», desabafa.

A customização surgiu nessa altura para preencher o vazio imenso.

«Sinceramente, foi o meu escape depois do futebol e bendito o dia em que decidi pegar em sapatilhas velhas para pintar com os meus filhos em casa. Estou muito contente por ter novamente um rumo.»

Nélson Augusto Tomas Ramos nasceu em Cabo Verde e chegou a Portugal em 2000, oriundo do Batuque. O lateral representou Vilanovense, Salgueiros, Boavista e Benfica antes de rumar ao futebol espanhol. Seguiram-se Betis de Sevilha, Osasuna, Palermo (Itália), Almería, um regresso a Portugal para jogar no Belenenses e nova experiência em Espanha, desta feita no Alcorcón.

A carreira de Nélson terminou na época 2017/18, ao serviço do AEK Larnaca (Chipre). Pelo caminho, Nélson acumulou três internacionalizações pela seleção portuguesa de sub-21 e quatro internacionalizações pela seleção AA.

Recorde a entrevista de carreira de Nélson Ramos ao Maisfutebol em 2020:

Nelson: «Se depois do meu trajeto fosse campeão no Benfica… cuidado»

Nelson: «Jaime Pacheco deu-me um computador e eu pagava-lhe aos poucos»

Nelson recorda Miccoli: «um Deus no Palermo» de… Dybala

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